segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Que canto terá?

Em algum canto perdido da infância, encontra-se o carrinho de puxar com barbante, um jogo de futebol de tampinhas. 
Em algum canto da casa está o peão que perdeu o prego de ponta, um caderno rabiscado sobre o rabisco. Em algum canto da imaginação está o silêncio do carinho materno, que existe mas tem que ser dividido entre tantos outros da prole.
Em algum canto do desejo está aquele boneco de controle remoto, aquele lanche verMelho vendido pelo palhaço, aquela chiclete que não acaba.
Em algum canto ainda não formado da personalidade está a violência dos desenhos e a benção “dizímica” das igrejas, o pessimismo das noticias e a banalidade dos programas.
Em algum canto do presente está a esperança que aquela criança tenha vindo ao mundo trazendo algo mais, de algum outro lugar, fora do tempo e espaço.
Em algum canto do futuro está o sonho de ver aquele ser, realizado.  


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pantanal

Corre por entre as veias
um delírio de conhecê-lo intimamente,
como os trilhos que correm por entre os banhados;
os campos que os rios
inundam displicentemente.
Em suas águas que correm de um córrego a outro
correm vidas maravilhosas,
coloridas e extintas que o irmão do caçador
corre para ver, e por lentes observa deslumbrado;
conclusões dolorosas o definem como
o único bicho ameaçado.
Na cheia correm aves cortando o céu;
desenham formas inocentes
pelo simples prazer de viver.
Ao seu lado corre um ar quente;
um sofrer antecipado dos campos
por onde correrá um fogo sem razão de existência,
dele correrão vidas que agora buscam
a própria sobrevivência.
Ficará um negrume deprimente;
por magia brotará das cinzas
uma nova semente quando águas novamente correrem por lá.
Vendo a paisagem correr pela janela do trem,
percebo que os homens,
correndo para lugar nenhum,
descobrirão, um dia,
que a vida não corre,
passeia...
*Extraído do Livro 'Verde Magia', 1991


Ilustração de Ronald Rosa



VERDE MAGIA

Sejam as cores, os contornos e rabiscos
que compõem este mundo,
a minha inspiração.
Cresça o desenhista de tanta beleza,
e sua imortal obra, a natureza,
dentro de minh’alma
que ajoelha em gratidão.
Floresça nos campos
as cores de infinitos seres
como um consolo aos olhos
que se perdem em solidão.
Deseje que a sensibilidade
brote neste dia,
e as promessas esquecidas tornem-se
reais numa eterna vida,
numa imortal e singela imensidão.

*extraído do livro "Verde Magia", 1991.