domingo, 3 de fevereiro de 2013

Um conto real de Fadas




Conheci Maria e João.
Ao contrario da história que adormece em algum canto da nossa infantil memória, não segui um rastro de migalhas de pão. Para conhecer João e Maria é preciso seguir apenas o escutar do coração.
A casa de Maria e João não é feita de paredes de doces e telhado de biscoitos. São feitas das madeiras de seu quintal, e pintadas com flores azuis e borboletas rosas e amarelas pelas mãos de Maria. Sob o olhar doce de João.
Não existem bruxas famintas querendo fazer bom proveito de João e Maria.
Pois na vida de Maria e João a bondade é reinante, e não há espaço para algo mal e humano. Pois as almas puras de João e Maria são protegidas pela força superior da floresta. Sua mãe amazônica.
João e Maria caminharam passos curtos numa estrada larga até chegarem onde estão. Nasceram nordeste, cresceram sulistas, descansam norte. Maria e João foram várias vezes de onde estão. Mas por alguma razão que só talvez a sutileza das sombras da mãe amazônica possa entender, João e Maria sempre voltaram. Sem seguir migalhas de pão. Pois para buscar seu destino não é preciso rastros, bastar seguir sua alma. Com calma. Como fizeram Maria e João. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Forte é o olhar de quem se tem

Meia noite de uma segunda-feira qualquer. Na vã tentativa de organizar um arquivo digital que insiste em aumentar, o encontro. Uma copia digital daquela que um dia foi uma cuidadosa ampliação fotográfica, revelada sob a luz vermelha de um laboratório manual. A nostalgia do químico, a mágica transformação da prata, o poder da espera, a satisfação do renascimento de uma cena.

Uma viagem pelas barrancas do Velho Chico, década e meia atrás. Tempos em que o tempo ainda era fiel guardador de nossos passos. A conheci morando numa ilhota do Rio; sua existência se completava em cuidar da capela, da casa, da lavoura. Fortes traços, densas palavras. Uma feiticeira dos tempos modernos, uma anciã do sertão.

Foram dias de idas e vindas na pequena canoa para percorrer o pequeno trecho de água que a separava do mundo. Enfim o pedido pela foto, a ousadia do rapaz e seu olhar urbano querendo gravar na emulsão acinzentada, aquele forte olhar. Finalmente o sinal positivo. Entrou na casa, soltou os longos cabelos negros. Voltou com o vaso de flores de plástico e alguns objetos na mão. Moedas antigas, portuguesas. Um cachimbo quebrado de índio. Ousei sentir o cheiro do passado no barro cozido do cachimbo. Relíquias que afloram na terra ressequida ao som silencioso de sua enxada. Sentada frente à porta, fita além da lente. Observa além dos tempos. Mostra a integridade que alicerça sua vida. Olha forte, vê além de mim. Forte é o olhar daquele que se tem. 



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Que canto terá?

Em algum canto perdido da infância, encontra-se o carrinho de puxar com barbante, um jogo de futebol de tampinhas. 
Em algum canto da casa está o peão que perdeu o prego de ponta, um caderno rabiscado sobre o rabisco. Em algum canto da imaginação está o silêncio do carinho materno, que existe mas tem que ser dividido entre tantos outros da prole.
Em algum canto do desejo está aquele boneco de controle remoto, aquele lanche verMelho vendido pelo palhaço, aquela chiclete que não acaba.
Em algum canto ainda não formado da personalidade está a violência dos desenhos e a benção “dizímica” das igrejas, o pessimismo das noticias e a banalidade dos programas.
Em algum canto do presente está a esperança que aquela criança tenha vindo ao mundo trazendo algo mais, de algum outro lugar, fora do tempo e espaço.
Em algum canto do futuro está o sonho de ver aquele ser, realizado.  


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pantanal

Corre por entre as veias
um delírio de conhecê-lo intimamente,
como os trilhos que correm por entre os banhados;
os campos que os rios
inundam displicentemente.
Em suas águas que correm de um córrego a outro
correm vidas maravilhosas,
coloridas e extintas que o irmão do caçador
corre para ver, e por lentes observa deslumbrado;
conclusões dolorosas o definem como
o único bicho ameaçado.
Na cheia correm aves cortando o céu;
desenham formas inocentes
pelo simples prazer de viver.
Ao seu lado corre um ar quente;
um sofrer antecipado dos campos
por onde correrá um fogo sem razão de existência,
dele correrão vidas que agora buscam
a própria sobrevivência.
Ficará um negrume deprimente;
por magia brotará das cinzas
uma nova semente quando águas novamente correrem por lá.
Vendo a paisagem correr pela janela do trem,
percebo que os homens,
correndo para lugar nenhum,
descobrirão, um dia,
que a vida não corre,
passeia...
*Extraído do Livro 'Verde Magia', 1991


Ilustração de Ronald Rosa



VERDE MAGIA

Sejam as cores, os contornos e rabiscos
que compõem este mundo,
a minha inspiração.
Cresça o desenhista de tanta beleza,
e sua imortal obra, a natureza,
dentro de minh’alma
que ajoelha em gratidão.
Floresça nos campos
as cores de infinitos seres
como um consolo aos olhos
que se perdem em solidão.
Deseje que a sensibilidade
brote neste dia,
e as promessas esquecidas tornem-se
reais numa eterna vida,
numa imortal e singela imensidão.

*extraído do livro "Verde Magia", 1991.